domingo, 9 de julho de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 02







4 anos atrás...



— Vamos lá, você sabe que adora ir nesses eventos. — A mulher loira de sorriso chamativo insistia.



— Não. Você gosta que eu vá — frisou — para que eu possa te exibir. — Sorriu enquanto suspirava.

— E você gosta disso. — Ally apontou com um sorriso vitorioso nos lábios carnudos. 

Tyler sabia que era uma batalha perdida e que eles iriam para essa festa de um jeito ou de outro.

— Está bem. Estarei pronto em uma hora.

Allyson deu um gritinho de alegria e o abraçou pelo pescoço.

— Eu garanto que vou te recompensar por isso. — Prometeu enquanto o assistia subir as escadas. 

Já faziam três anos que estavam casados e o amor que sentiam um pelo o outro no início do relacionamento já era passado. A única coisa que os mantinham juntos era o sexo e as festas para a publicidade dos concertos de Tyler. Ele não gosta de se exibir, mas admite que é um ótimo pianista.

— Eu já disse que queria ter ficado em casa?

— Nem comece, Tyler, se você não tivesse feito birra já estaríamos lá.

— Eu não queria ter saído. Você sabe que eu não gosto de sair na semana de um grande concerto.

— Você e suas superstições. Vamos nos atrasar assim. Não dá pra ir mais rápido?

— Ally, olha para o céu. Você sabe que não gosto de dirigir na chuva.

— Pelo amor de Deus, Tyler, é só água. — E nesse instante um trovão cruzou o céu.

— Vamos voltar está bem? — Ele não iria arriscar, sem falar que estava horrível para dirigir, caiam grossas gotas d’água do céu e em uma velocidade que seu limpador de para-brisa não conseguia acompanhar. — Eu prometo que na próxima vez nós vamos.

— Você é um chato. — Respondeu emburrada e Tyler entrou na rotatória para fazer o retorno, mas um cachorro cruzou seu caminho, o fazendo desviar, e com a pista molhada ele perdeu o controle da direção e o carro bateu no acostamento, derrapando e indo barranco abaixo.

Após isso a escuridão os tomou.

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A cabeça de Tyler doía como se ele estivesse com a maior ressaca de sua vida. Seus olhos estavam fechados, mas ao fundo ele conseguia ouvir vozes. Sentia seu rosto pegar fogo, mas também coçava e havia algo que pinicava sua bochecha, sua vontade era esfregar a mão em toda extensão de seu rosto, mas pressentia que se fizesse isso a queimação iria piorar. 

O que estava acontecendo?

De repente ele se lembrou de fragmentos da noite e sua esposa veio rapidamente em sua mente.

— Ally... — A chamou, tentando abrir seus olhos, mas a claridade não permitiu que o fizesse. — Ally... — Chamou-a novamente e sentiu uma mão em seu ombro.

— Tudo bem. Consegue abrir os olhos? — Um homem perguntou e Tyler tentou de novo abri-los, dessa vez se acostumando aos poucos com a luz. Depois de três tentativas conseguiu mantê-los abertos. Notou que estava em um hospital. 

— Quem é você? — Perguntou confuso.

— Eu sou o doutor Holland. Pode me chamar de Jason, está bem? — Sorriu amigavelmente. — Você sabe quem você é?

— Você não sabe quem eu sou? — Retrucou.

— Eu sei quem é você. E você? Sabe quem é?

— Tyler. Tyler Smith.

— Consegue me falar três coisas sobre você, Tyler?

— Eu sou pianista, eu moro em Nova York e sou casado com Allyson Smith.

— A moça que estava com você?

— Sim. O que aconteceu? Ela está bem? Eu quero vê-la.

— Houve um acidente de carro. O seu caso foi grave, mas o de sua esposa foi um pouco pior.

— Eu não... — Ele ainda estava um pouco perdido. 

Como o caso dela poderia ser pior do que o seu? Ele olhou para seu corpo e todos os membros estavam engessados e haviam ferros prendendo seu braço direito e sua perna esquerda. Tyler sentiu um arrepio atravessar sua espinha ao pensar nas consequências daquele acidente. Para ambos.

— Qual o quadro dela?

— Paraplegia. — Tyler separou os lábios, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. — Irreversível, infelizmente. — Acrescentou. — Eu sinto muito.

— Quer dizer que... ela nunca mais vai andar? — Aquilo já era horrível, mas no caso de Ally era ainda pior, visto que ela era modelo. Tyler estava em choque.

— Foi um acidente muito grave, senhor Smith. Ela tem sorte de estar viva. Os dois tem.

— Eu também não vou mais andar?

— Vai andar sim, seu caso não foi tão grave.

— Não foi tão grave? Eu estou engessado e com ferros nos meus braço e perna. Como não foi grave?

— O seu quadro foi dado como paraplegia espástica e flácida. Não houve perda dos movimentos. Não permanentemente. — Explicou. — Um pouco de fisioterapia e alguns tratamentos ajudarão a se recuperar. Ainda ficará com sequelas, mas talvez possa viver normalmente.

— É isso? Minha esposa nunca mais vai andar e eu talvez possa viver normalmente? Eu sou pianista. Eu dependo dos meus movimentos na minha carreira, senhor Holland. 

— Eu entendo, mas não há mais nada que possamos fazer, senhor Smith. Eu sinto muito. — Repetiu, soando dessa vez mais sincero.

— Eu aposto que sente. Com seus braços e pernas perfeitos. — Vociferou sarcástico. — Eu preciso avisar à alguém que estou aqui.

— Já avisamos. Como eu disse, sabemos quem o senhor era assim que foi trazido. Já chamamos o doutor Patz.

— E por que ele não está aqui? — Perguntou praticamente gritando.

— Ele está, ele...

— Então o mande entrar. Agora! — O médico suspirou e saiu. Ele sabia que pessoas como Tyler tinham, não apenas, respeito por onde passavam, mas também se impunham com certo ar egocêntrico e mimado até. 

Logo o pai de Tyler, Charles Patz, entrou no quarto. 

— Pai! Deve ter alguma coisa. — Disse assim que viu o homem de cabelos claros, com alguns fios grisalhos, se aproximando de sua maca.

— Eu sinto muito, Tyler.

— Não... Ally, ela está...

— Tyler... Olhe pra mim, filho. — Ele pediu e Tyler o obedeceu.

— Não há nada que possamos fazer por ela. O quadro dela é irreversível. Vamos fazer de tudo para deixa-la o mais confortável possível em sua nova condição.

— Ela me odeia, não é?

— Ela está com raiva agora, filho, mas vai passar.

— E se não passar?

— Foi um acidente, Tyler. Pode ser difícil, mas essa é a realidade de vocês agora. — Suspirou. — O importante é que vocês estão vivos. — Os olhos de Charles brilhavam com as lágrimas que ameaçavam cair. 

Felizmente seu filho estava bem e era aquilo que realmente importava pra ele. 

Mais tarde, naquele mesmo dia, Tyler descobriu que não era só seu corpo que estava diferente. Além da perda de reflexos, ele ganhou uma cicatriz no rosto. Uma que ia desde sua orelha esquerda até o canto da boca, mas como seu pai havia dito: essa era a realidade deles agora.

Passaram-se algumas semanas e Tyler já havia retirado os pontos do rosto, mas seu corpo continuava engessado, aquela situação o estava matando por dentro, já não aguentava mais. Queria que tudo aquilo fosse um pesadelo, o problema é que todos os dias ele acordava e continuava preso àquela maca como uma lembrança constante de que sua vida estava arruinada. Assim como a de sua esposa.

Ally ficara algumas semanas no hospital também, mas naquele dia ela teria alta. A raiva e a dor a consumiam. Ela não acreditava que aquilo havia acontecido. 

Antes de ir para casa ela pediu para que sua mãe a levasse até o quarto de Tyler, pois queria vê-lo, queria falar com ele, precisava dizer o que estava preso em sua garganta desde o dia em que despertou naquele hospital sem os movimentos das pernas.

A porta do quarto foi aberta e Tyler rapidamente olhou para lá. Ele sentiu os pelos de seu corpo se eriçarem ao ver Ally naquela cadeira de rodas, mas o que realmente o fez se sentir o pior homem da face da Terra foi o olhar dela, carregado de ódio.

— Você fez isso, Tyler. — O acusou assim que entrou por completo no quarto. — Eu estou presa nessa maldita cadeira de rodas por sua causa. Eu te odeio tanto, você não tem ideia do quanto! — As lágrimas molhavam seu rosto.

— Vamos, Ally. — Sua mãe nem sequer conseguia olhar para Tyler, apenas acatou ao pedido da filha, mas por ela, elas estariam bem longe dali, tentando achar alguma cura para Allyson

— Não! Ainda não. 

— Ally, eu sinto muito. — Tyler tinha um nó na garganta e seus olhos ardiam. — Eu sinto muito.

— Sentir muito não vai fazer eu andar de novo! Você destruiu minha vida. É tudo culpa sua! — Tentou acalmar a respiração. — Eu te odeio. — Sussurrou, mas ele ouviu. 

— Minha situação também não é a das melhores. Eu não vou poder voltar a tocar piano. — Retrucou em um lamento.

Allyson o olhou com desprezo.

— Então acho que estamos quites. — Sorriu sem humor. Tyler sentia seu coração sendo arrancado de seu peito. — Me tire daqui, mãe. — Pediu à mulher mais velha, com alguns fios brancos.

Logo Tyler ficou sozinho no quarto. E mal sabia ele que aquela solidão estava apenas começando. 

                           CONTINUA...