sábado, 22 de julho de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 04









— Que negocio é esse? — Perguntou encarando o que Anna trazia em seu colo.
— Um gato. — Respondeu como se fosse óbvio.
— Isso não é um gato — Argumentou.
— É claro que é. — Respondeu, fazendo carinho no bichinho.
— E por que diabos ele está do avesso?
— Ei! Ele não está do avesso. — Defendeu o gato, o acariciando. — Ele é de raça. — Acrescentou.
— Eu não sei o que você pensa que está fazendo, mas não pode trazer seus bichos pra cá. — Ralhou com a morena.
— Ele não é meu. — Respondeu apontando para o felino. — Ele é seu. E o nome dele é Peludo.
— Você está brincando, não é? — Questionou, ainda sem acreditar no que ela dizia.
— Não.
— Ele não tem um único pelo no corpo. — Disse furioso. — E como assim ele é meu? — Indagou, apontando para o bicho que ronronava tranquilamente no colo dela.
— Eu pensei que seria bom você ter uma companhia quando eu não estiver aqui. — Replicou simplesmente. — Alem do mais, você agora tem muita ração, já que me fez comprar cinco quilos. — Acrescentou sorrindo.
— Você me comprou um gato fodidamente estranho porque eu fiz você comprar ração? — Perguntou sem acreditar na loucura daquela garota.
— Ei! Não fala assim dele. — O advertiu. — Ele é adorável. Parece um pouco com você. — Respondeu acariciando o felino.
— Você só pode estar brincando comigo. — Rugiu realmente irritado com a comparação. Ele não se parecia com aquela coisa.
— Por que eu brincaria? — Perguntou seriamente.
— Eu não me pareço com esse negócio que você chama de gato. — Declarou apontando para o bichinho que ronronava feliz no colo de Anna.
— Eu acho que parece um pouco, e além do mais, gatos...
— Uma merda que eu pareço. — Ele bradou, a interrompendo e ela o ignorou completamente, continuando a discursar:
— E além do mais, gatos são ótimas companhias. Eu pensei que você pudesse gostar de uma companhia e...
— Pensou errado. Você sabe como a política patrão e empregado funciona, certo?  — Perguntou com a raiva transbordando em sua voz.
— Sim, mas... — Calou-se ao ser interrompida.
— Eu dou ordens, você as cumpre. — Rosnou cada palavra, a olhando nos olhos para que entendesse que não estava brincando. — E eu não me lembro de ter pedido para você trazer essa bola de pele para minha casa.
— Mas... — Tentou argumentar quando ele a interrompeu outra vez.
— Ele não vai ficar aqui. — Rugiu, indignado com a audácia da morena.
— Eu não posso devolvê-lo.
— Isso não é problema meu. — Disse se virando e indo para o escritório. A deixando sozinha com aquele projeto de gato.
Anna olhou para o gato e para a porta fechada sem saber o que havia dado errado. Colocou Peludo no sofá e foi até o escritório para tentar resolver aquilo. Ela bateu na porta e o ouviu suspirar.
— O que? — Gritou lá de dentro.
— Eu posso entrar? — Perguntou timidamente, esperando que ele gritasse de novo.
— Se eu disser não, você vai embora? — Questionou irritado.
— Provavelmente não. — Retrucou.
— Entra. — Grunhiu e ela entrou, o encontrando sentado em sua poltrona e olhando pela janela. — O que você quer?
— Eu queria ver como você estava. — Respondeu envergonhada. — Eu não sabia que você iria se chatear tanto. — Explicou. — Eu só achei que talvez fosse bom ter uma companhia. Você fica muito sozinho aqui. — Disse apontando para o escritório.
Esse é o problema. — Murmurou.
— O que? — Perguntou confusa.
— Esse é o problema. Você pensou que uma companhia seria o melhor para mim, do mesmo jeito que meu pai pensa que a fisioterapia é o melhor para mim. — Respondeu olhando para ela. — Todos pensam que sabem o que é melhor para mim, mas ninguém pergunta o que eu quero. — Disse observando enquanto ela corava.
— E o que você quer? — Perguntou.
— Esse é outro problema. — Respondeu sorrindo com escárnio. — Eu não sei o que eu quero. — Voltou a olhar para a janela.
— Posso perguntar uma coisa? — Se aproximou dele.
— Se eu disser que não, você vai embora? — Questionou cobrindo o rosto com as mãos.
— Não. — Respondeu rapidamente, querendo saber qual era o limite imposto por ele.
— Pergunte logo.
— Por que me odeia tanto? — Perguntou e ele suspirou, pensando se devia contar a verdade, uma vez que não conseguiria se livrar dela de qualquer jeito.
— Não odeio você. Não gosto particularmente de você, mas não te odeio. — A olhou e pôde ver a curiosidade brotando em seus olhos castanhos. — Eu odeio o que você representa.
— O que eu represento? — Ficou confusa.
— Minha total incapacidade de administrar minha vida sozinho. Mesmo que eu diga que consigo me virar sozinho e que não preciso de ajuda, eu sei que é mentira. E que existem algumas coisas que eu nunca mais vou poder fazer.
— Como o que? — Questionou.
— Como dirigir, por exemplo. Eu adorava dirigir. A sensação de liberdade, de poder pegar a estrada e sentir o vento no meu rosto.
— E não pode mais fazer isso? — Indagou curiosa. — Nunca mais?
— Não. — Respondeu suspirando.
— Mesmo com fisioterapias e... — Dizia quando foi interrompida.
— Não. — Respondeu irritado. Todos lhe diziam que a fisioterapia ajudaria, mas ela nunca havia trazido sua total independência de volta, então ele havia desistido. — Não tente criar expectativas, porque isso não é possível.
— Eu posso fazer mais um pergunta?
— Não. Vá embora. Eu quero dormir. — Respondeu escondendo o rosto entre as mãos.
— Tudo bem. — Disse saindo, mas se virou no meio do caminho e o chamou. — Senhor Smith?
— Só pode ser brincadeira. — Murmurou irritado com a insistência dela. — O que?
— Ontem à noite quando fui para casa, percebi que não tenho o número do seu celular.
— Isso porque eu não tenho um. — Respondeu simplesmente.
— Como não tem? — Questionou surpresa.
— Eu não sei se notou, senhorita Miller, mas eu não tenho muitos amigos. Simplesmente não vejo a necessidade de ter um celular. — Declarou mal humorado com as perguntas de sua assistente. — Mais alguma coisa?
— Não. Eu vou preparar o almoço agora. — Anunciou. — Algum pedido especial?
— Não salgar a comida já está de bom tamanho. — Respondeu ironicamente.
— Tudo bem. Eu o chamo quando estiver pronto. — Acrescentou, saindo do escritório.
Depois de preparar o almoço, Anna foi até o escritório, mas a porta estava aberta e não havia ninguém ali. Ela foi até a biblioteca, mas também não o encontrou.
 Decidiu subir até o quarto e, chegando lá, bateu na porta, porém ninguém respondeu então ela pensou que ele estivesse dormindo. Ao entrar, ouviu o barulho do chuveiro e por um espelho conseguiu ter um vislumbre das costas dele. Por causa da fisioterapia seu corpo era muito bem tonificado. Ela ficou hipnotizada por um instante, até que o chuveiro se desligou e ela entrou em desespero, sem saber para onde ir. 
Anna estava perto da porta, com a mão na maçaneta, quando ele a flagrou.
— O que você pensa que está fazendo no meu quarto?  — Questionou, a fazendo respirar fundo e se virar para ele.
— Eu o procurei no escritório e na biblioteca, mas não te encontrei, então...
— Então decidiu invadir meu quarto? — Perguntou, enquanto secava seus cabelos negros com uma toalha e mantinha outra enrolada em sua cintura.
Ela praticamente o devorava com os olhos. Admirava seu peito e barriga lisa, descendo até seu volume, onde a toalha o cobria. Quando percebeu que ele a observava – com um sorriso maroto brincando nos lábios –, corou furiosamente, voltando a olhá-lo nos olhos.
— Eu não queria invadir, eu só... — Pigarreou, tentando manter a coerência, mas o cheiro que sentia vindo dele não colaborava com a pouca coesão que lhe restara. — Eu pensei que o senhor estivesse dormindo, então vim chamá-lo para o almoço.
— E em que parte entra a invasão ao meu quarto? — Questionou arqueando uma sobrancelha e cruzando os braços sobre o peito, ainda desnudo.
— Eu bati na porta, mas o senhor não ouviu. E eu só vim chamá-lo para almoçar e agora que já chamei... — Declarou tentando não gaguejar. — ... eu já vou. — Replicou nervosa e ele sorriu.
— Minha nudez a deixa desconfortável, senhorita Miller?
— Não! — Respondeu muito rápido, o fazendo rir enquanto ela corava ainda mais. — Quero dizer, não. — Exclamou despreocupada. — Eu tenho que arrumar a mesa, então... — Disse passando pela porta e a fechando atrás de si. 
O que aquele homem estava fazendo com seu controle? Perguntou-se caminhando até o andar de baixo, enquanto ele ficou no quarto, sorrindo com a descoberta de como se livrar dela.
Depois do almoço, Anna voltou a organizar os livros na biblioteca e quando deu seu horário, o procurou para se despedir e ver como ele estava.
— Eu já estou indo, senhor Smith. — Comunicou sem entrar realmente no escritório. — Precisa de mais alguma coisa?
— Não. — Respondeu grosseiramente.
— Até amanhã então. — Declarou se virando, quando ele a chamou.
— Espere! Não se esqueceu de nada? — Questionou e ela olhou para seu celular, sua bolsa e suas chaves, procurando o que poderia ter esquecido.
— Não. — Afirmou.
— E esse projeto de gato mal sucedido? — Perguntou observando o gato, que rondava as pernas da morena.
— Não fale assim do Peludo. — Ralhou. — E eu não vou levá-lo. Ele é seu. — Sorriu gentilmente.
— Ele não é meu. — Declarou. — Você o chamou pelo nome, já se afeiçoou à ele. Leve-o com você. — Apontou para ela, na tentativa de que ela o levasse para longe.
— Não permitem animais no meu prédio. — Revelou, torcendo as mãos nervosamente. Se ele realmente não ficasse com o Peludo, não saberia o que fazer com ele.
— Isso não é problema meu. — Rebateu cruzando os braços no peito em desafio. — Eu não o quero.
— Ele é uma companhia. — Tentou argumentar.
— Eu não quero uma companhia. — Respondeu se levantando com a ajuda da bengala. — Eu sou sozinho. — Acrescentou apontando para si mesmo. — E eu gosto disso.
— Ninguém gosta disso. — Retrucou. — Dê uma chance à ele. Ele é legal. — Ela disse passando a mão no gato e o fazendo ronronar. — Viu? Agora tenho que ir. — Disse caminhando até a porta. — Vejo o senhor amanhã. — Se despediu, saindo antes que ele falasse mais alguma coisa.
Tyler olhou para aquele bicho, que o encarou de volta rosnando e mostrando seus afiados dentes.
— Ah é! Ele é muito legal. — Disse irritado por ter sido vencido tão facilmente e pensando em um jeito de se livrar de mais um problema.






                           CONTINUA...