sábado, 22 de julho de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 04









— Que negocio é esse? — Perguntou encarando o que Anna trazia em seu colo.
— Um gato. — Respondeu como se fosse óbvio.
— Isso não é um gato — Argumentou.
— É claro que é. — Respondeu, fazendo carinho no bichinho.
— E por que diabos ele está do avesso?
— Ei! Ele não está do avesso. — Defendeu o gato, o acariciando. — Ele é de raça. — Acrescentou.
— Eu não sei o que você pensa que está fazendo, mas não pode trazer seus bichos pra cá. — Ralhou com a morena.
— Ele não é meu. — Respondeu apontando para o felino. — Ele é seu. E o nome dele é Peludo.
— Você está brincando, não é? — Questionou, ainda sem acreditar no que ela dizia.
— Não.
— Ele não tem um único pelo no corpo. — Disse furioso. — E como assim ele é meu? — Indagou, apontando para o bicho que ronronava tranquilamente no colo dela.
— Eu pensei que seria bom você ter uma companhia quando eu não estiver aqui. — Replicou simplesmente. — Alem do mais, você agora tem muita ração, já que me fez comprar cinco quilos. — Acrescentou sorrindo.
— Você me comprou um gato fodidamente estranho porque eu fiz você comprar ração? — Perguntou sem acreditar na loucura daquela garota.
— Ei! Não fala assim dele. — O advertiu. — Ele é adorável. Parece um pouco com você. — Respondeu acariciando o felino.
— Você só pode estar brincando comigo. — Rugiu realmente irritado com a comparação. Ele não se parecia com aquela coisa.
— Por que eu brincaria? — Perguntou seriamente.
— Eu não me pareço com esse negócio que você chama de gato. — Declarou apontando para o bichinho que ronronava feliz no colo de Anna.
— Eu acho que parece um pouco, e além do mais, gatos...
— Uma merda que eu pareço. — Ele bradou, a interrompendo e ela o ignorou completamente, continuando a discursar:
— E além do mais, gatos são ótimas companhias. Eu pensei que você pudesse gostar de uma companhia e...
— Pensou errado. Você sabe como a política patrão e empregado funciona, certo?  — Perguntou com a raiva transbordando em sua voz.
— Sim, mas... — Calou-se ao ser interrompida.
— Eu dou ordens, você as cumpre. — Rosnou cada palavra, a olhando nos olhos para que entendesse que não estava brincando. — E eu não me lembro de ter pedido para você trazer essa bola de pele para minha casa.
— Mas... — Tentou argumentar quando ele a interrompeu outra vez.
— Ele não vai ficar aqui. — Rugiu, indignado com a audácia da morena.
— Eu não posso devolvê-lo.
— Isso não é problema meu. — Disse se virando e indo para o escritório. A deixando sozinha com aquele projeto de gato.
Anna olhou para o gato e para a porta fechada sem saber o que havia dado errado. Colocou Peludo no sofá e foi até o escritório para tentar resolver aquilo. Ela bateu na porta e o ouviu suspirar.
— O que? — Gritou lá de dentro.
— Eu posso entrar? — Perguntou timidamente, esperando que ele gritasse de novo.
— Se eu disser não, você vai embora? — Questionou irritado.
— Provavelmente não. — Retrucou.
— Entra. — Grunhiu e ela entrou, o encontrando sentado em sua poltrona e olhando pela janela. — O que você quer?
— Eu queria ver como você estava. — Respondeu envergonhada. — Eu não sabia que você iria se chatear tanto. — Explicou. — Eu só achei que talvez fosse bom ter uma companhia. Você fica muito sozinho aqui. — Disse apontando para o escritório.
Esse é o problema. — Murmurou.
— O que? — Perguntou confusa.
— Esse é o problema. Você pensou que uma companhia seria o melhor para mim, do mesmo jeito que meu pai pensa que a fisioterapia é o melhor para mim. — Respondeu olhando para ela. — Todos pensam que sabem o que é melhor para mim, mas ninguém pergunta o que eu quero. — Disse observando enquanto ela corava.
— E o que você quer? — Perguntou.
— Esse é outro problema. — Respondeu sorrindo com escárnio. — Eu não sei o que eu quero. — Voltou a olhar para a janela.
— Posso perguntar uma coisa? — Se aproximou dele.
— Se eu disser que não, você vai embora? — Questionou cobrindo o rosto com as mãos.
— Não. — Respondeu rapidamente, querendo saber qual era o limite imposto por ele.
— Pergunte logo.
— Por que me odeia tanto? — Perguntou e ele suspirou, pensando se devia contar a verdade, uma vez que não conseguiria se livrar dela de qualquer jeito.
— Não odeio você. Não gosto particularmente de você, mas não te odeio. — A olhou e pôde ver a curiosidade brotando em seus olhos castanhos. — Eu odeio o que você representa.
— O que eu represento? — Ficou confusa.
— Minha total incapacidade de administrar minha vida sozinho. Mesmo que eu diga que consigo me virar sozinho e que não preciso de ajuda, eu sei que é mentira. E que existem algumas coisas que eu nunca mais vou poder fazer.
— Como o que? — Questionou.
— Como dirigir, por exemplo. Eu adorava dirigir. A sensação de liberdade, de poder pegar a estrada e sentir o vento no meu rosto.
— E não pode mais fazer isso? — Indagou curiosa. — Nunca mais?
— Não. — Respondeu suspirando.
— Mesmo com fisioterapias e... — Dizia quando foi interrompida.
— Não. — Respondeu irritado. Todos lhe diziam que a fisioterapia ajudaria, mas ela nunca havia trazido sua total independência de volta, então ele havia desistido. — Não tente criar expectativas, porque isso não é possível.
— Eu posso fazer mais um pergunta?
— Não. Vá embora. Eu quero dormir. — Respondeu escondendo o rosto entre as mãos.
— Tudo bem. — Disse saindo, mas se virou no meio do caminho e o chamou. — Senhor Smith?
— Só pode ser brincadeira. — Murmurou irritado com a insistência dela. — O que?
— Ontem à noite quando fui para casa, percebi que não tenho o número do seu celular.
— Isso porque eu não tenho um. — Respondeu simplesmente.
— Como não tem? — Questionou surpresa.
— Eu não sei se notou, senhorita Miller, mas eu não tenho muitos amigos. Simplesmente não vejo a necessidade de ter um celular. — Declarou mal humorado com as perguntas de sua assistente. — Mais alguma coisa?
— Não. Eu vou preparar o almoço agora. — Anunciou. — Algum pedido especial?
— Não salgar a comida já está de bom tamanho. — Respondeu ironicamente.
— Tudo bem. Eu o chamo quando estiver pronto. — Acrescentou, saindo do escritório.
Depois de preparar o almoço, Anna foi até o escritório, mas a porta estava aberta e não havia ninguém ali. Ela foi até a biblioteca, mas também não o encontrou.
 Decidiu subir até o quarto e, chegando lá, bateu na porta, porém ninguém respondeu então ela pensou que ele estivesse dormindo. Ao entrar, ouviu o barulho do chuveiro e por um espelho conseguiu ter um vislumbre das costas dele. Por causa da fisioterapia seu corpo era muito bem tonificado. Ela ficou hipnotizada por um instante, até que o chuveiro se desligou e ela entrou em desespero, sem saber para onde ir. 
Anna estava perto da porta, com a mão na maçaneta, quando ele a flagrou.
— O que você pensa que está fazendo no meu quarto?  — Questionou, a fazendo respirar fundo e se virar para ele.
— Eu o procurei no escritório e na biblioteca, mas não te encontrei, então...
— Então decidiu invadir meu quarto? — Perguntou, enquanto secava seus cabelos negros com uma toalha e mantinha outra enrolada em sua cintura.
Ela praticamente o devorava com os olhos. Admirava seu peito e barriga lisa, descendo até seu volume, onde a toalha o cobria. Quando percebeu que ele a observava – com um sorriso maroto brincando nos lábios –, corou furiosamente, voltando a olhá-lo nos olhos.
— Eu não queria invadir, eu só... — Pigarreou, tentando manter a coerência, mas o cheiro que sentia vindo dele não colaborava com a pouca coesão que lhe restara. — Eu pensei que o senhor estivesse dormindo, então vim chamá-lo para o almoço.
— E em que parte entra a invasão ao meu quarto? — Questionou arqueando uma sobrancelha e cruzando os braços sobre o peito, ainda desnudo.
— Eu bati na porta, mas o senhor não ouviu. E eu só vim chamá-lo para almoçar e agora que já chamei... — Declarou tentando não gaguejar. — ... eu já vou. — Replicou nervosa e ele sorriu.
— Minha nudez a deixa desconfortável, senhorita Miller?
— Não! — Respondeu muito rápido, o fazendo rir enquanto ela corava ainda mais. — Quero dizer, não. — Exclamou despreocupada. — Eu tenho que arrumar a mesa, então... — Disse passando pela porta e a fechando atrás de si. 
O que aquele homem estava fazendo com seu controle? Perguntou-se caminhando até o andar de baixo, enquanto ele ficou no quarto, sorrindo com a descoberta de como se livrar dela.
Depois do almoço, Anna voltou a organizar os livros na biblioteca e quando deu seu horário, o procurou para se despedir e ver como ele estava.
— Eu já estou indo, senhor Smith. — Comunicou sem entrar realmente no escritório. — Precisa de mais alguma coisa?
— Não. — Respondeu grosseiramente.
— Até amanhã então. — Declarou se virando, quando ele a chamou.
— Espere! Não se esqueceu de nada? — Questionou e ela olhou para seu celular, sua bolsa e suas chaves, procurando o que poderia ter esquecido.
— Não. — Afirmou.
— E esse projeto de gato mal sucedido? — Perguntou observando o gato, que rondava as pernas da morena.
— Não fale assim do Peludo. — Ralhou. — E eu não vou levá-lo. Ele é seu. — Sorriu gentilmente.
— Ele não é meu. — Declarou. — Você o chamou pelo nome, já se afeiçoou à ele. Leve-o com você. — Apontou para ela, na tentativa de que ela o levasse para longe.
— Não permitem animais no meu prédio. — Revelou, torcendo as mãos nervosamente. Se ele realmente não ficasse com o Peludo, não saberia o que fazer com ele.
— Isso não é problema meu. — Rebateu cruzando os braços no peito em desafio. — Eu não o quero.
— Ele é uma companhia. — Tentou argumentar.
— Eu não quero uma companhia. — Respondeu se levantando com a ajuda da bengala. — Eu sou sozinho. — Acrescentou apontando para si mesmo. — E eu gosto disso.
— Ninguém gosta disso. — Retrucou. — Dê uma chance à ele. Ele é legal. — Ela disse passando a mão no gato e o fazendo ronronar. — Viu? Agora tenho que ir. — Disse caminhando até a porta. — Vejo o senhor amanhã. — Se despediu, saindo antes que ele falasse mais alguma coisa.
Tyler olhou para aquele bicho, que o encarou de volta rosnando e mostrando seus afiados dentes.
— Ah é! Ele é muito legal. — Disse irritado por ter sido vencido tão facilmente e pensando em um jeito de se livrar de mais um problema.






                           CONTINUA...
Capítulo Anterior             Próximo Capítulo



domingo, 16 de julho de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 03




Atualmente...
Ana acordou animada com seu primeiro dia de trabalho. Seu primeiro dia oficial. Pela noite passada ela sabia que ele seria um desafio, mas não permitiria que nada à abalasse, então vestiu sua melhor roupa e partiu rumo à mansão Smith .
— Bom dia senhor, Smith . — Cumprimentou, fazendo Tyler saltar na cozinha.
— Como diabos você entrou aqui?
— O seu pai me deu uma cópia da chave e como o senhor disse que não estaria acordado a essa hora, eu vim preparar o café.
— Eu já disse que não preciso de babá.
— E eu já disse que não sou sua babá. Sou sua assistente.
— Que seja! — Retrucou mal humorado, saindo da cozinha e indo para o escritório.
Alguns minutos depois ele ouviu portas batendo e se levantou para ver o que estava acontecendo.
— O que você está fazendo agora?
— Checando a despensa. O senhor Patz disse que fazia mais de um mês que o senhor não tinha uma assistente, eu imaginei...
— Imaginou que minhas despensas estivessem criando teias de aranha? Eu sou perfeitamente capaz de fazer minhas compras, senhorita Miller. Agora, será que pode parar de bater essas malditas portas? Igual a todas as outras noites, não dormi, então estou tentando fazer isso agora e seria de grande ajuda se você ficasse quieta. — Discursou e saiu mancando, com a ajuda da bengala, de volta para o escritório.
— Grosso. — Ana murmurou quando ele bateu a porta.
Agora que já tinha certeza que a despensa estava cheia, ela não sabia o que fazer, já que ele não havia lhe dado uma agenda nem nada. Então o mais silenciosamente que conseguiu, abriu os armários para preparar o almoço.
Ela nunca havia sido uma boa cozinheira, mas sabia fazer algumas coisas. Quando terminou, foi até a sala de jantar e arrumou tudo.
Depois foi até o escritório e deu leves batidas na porta, mas ninguém respondeu, ela a abriu vagarosamente e encontrou Tyler dormindo em uma poltrona. Chegou mais e mais perto, o observando. Quase admirando. Ele era um homem bonito. Mesmo sendo terrivelmente rabugento e até com aquela cicatriz no rosto, cicatriz na qual ela achava muito sexy até. Ele começou a abrir os olhos lentamente e ela se afastou.
— O que você quer? — Ele perguntou suspirando.
— Eu preparei o almoço. — Respondeu e ele suspirou de novo, tentando se levantar.
— Precisa de...
— Não. — Ele a interrompeu, secamente, terminando de se levantar com a ajuda da bengala e indo para a sala de jantar.
— Eu fiz batata ao creme. Na verdade é uma das poucas coisas que eu sei cozinhar. — Ela comentou e ele se sentou como se não tivesse escutado uma palavra se quer que saíra da boca dela. — Você se importa se eu comer aqui com você? Eu não gosto muito de comer sozinha. — Pediu e ele deu de ombros. — Você quer que eu...
— Eu não sou uma criança, senhorita Miller. Acho que sou capaz de me servir sozinho. — Tyler a cortou e voltou a colocar a comida no prato com certa dificuldade. Assim que levou a primeira garfada a boca, fez uma careta. — Ah, Deus... Você quer me matar?
— O que? Eu não. Não gostou?
— Você colocou quantos quilos de sal nessas batatas? — Perguntou com uma careta de desgosto no rosto e ela provou a comida, não sentindo nada de diferente.
Talvez os remédios que ele tomasse o deixavam sensível para o sal. Ela se lembraria de colocar menos da próxima vez.
Na verdade a comida estava boa, ótima até, ele pensou, mas era divertido provocá-la. Depois de várias críticas de como a batata estava dura e o creme frio, ele voltou a comer.
— O senhor tem alguma tarefa para mim, senhor Smith? — Ela perguntou assim que terminaram.
— Tudo bem. — Ele disse esfregando os olhos e suspirando. — Se você quer tanto uma tarefa. Aqui. — Ele pegou um pedaço de papel do bolso de seu jeans e escreveu um nome estranho com uma caneta que estava jogada sobre uma estante, próximo à mesa de jantar e a porta que levava à cozinha. — Vá até a loja de animais e traga essa ração. É especial e difícil de encontrar. — Entregou à ela o papel. — A que eu tinha acabou.
— Ração?
— Para o meu gato. — Explicou.
— Eu não sabia que o senhor tinha um gato.
— Ele não é muito sociável. Algum problema com gatos? É alérgica? — Ele perguntou quase esperançoso.
— Não.
— Merda. — Ele murmurou se levantando.
— Mais alguma coisa?
— Não. Só a ração.
Ana saiu e rodou cinco pet shops diferentes, mas não encontrou a ração. Voltou para casa de mãos vazias.
— Você demorou. Onde está? — Perguntou com uma sobrancelha arqueada.
— Desculpe, senhor Smith. Eu fui a cinco lojas diferentes, mas ninguém conhece essa ração. Eu poderia...
— Não. Você queria tanto uma tarefa e eu lhe dei, mas se não consegue comprar ração, então não acho que sirva para tratar de assuntos mais sérios.
— Senhor Smith , eu garanto que...
— Você fez tudo o que podia e blá, blá, blá. Estou no escritório. E a menos que a casa esteja pegando fogo, não me chame. — Avisou e foi mancando para o escritório.
Ana pegou a chave do carro, não iria desistir até conseguir a maldita ração! Encontrou um último saco e pagou quase cem dólares por ele. Voltou para a mansão satisfeita e orgulhosa de si mesma.
— Senhor Smith? — Ela chamou, batendo na porta do escritório e depois ouviu um resmungo.
— É bom que a casa esteja fodidamente pegando fogo... O que é? — Perguntou escancarando a porta.
— Eu consegui a ração.
— Parabéns para você.
— Onde ele costuma comer?
— Onde quem costuma comer? — Questionou ainda meio grogue pelo remédio para dormir, que havia tomado depois do almoço.
— O seu gato.
— Eu não tenho gato. Eu queria que você saísse da casa e me deixasse em paz. — Explicou bocejando, fazendo pouco caso.
— Você está brincando. — Rosnou. Não acreditava que aquele infeliz estava tirando sarro de sua cara.
— Não estou, não. Meu gato morreu há uns três anos.
— Eu rodei a cidade atrás dessa ração e você nem tem um gato. — Falou mais alto do que pretendia.
— Eu não gosto que gritem comigo.
— E eu não gosto que me façam de idiota.
— Então é simples: vá embora! — Ele rugiu.
— Eu não vou embora. Não vou deixar... — Umedeceu os lábios. — Não vou deixar esse emprego e nem você. — Tyler sentiu a intensidade das palavras dela e seu estômago revirou. — Por pior que você seja, eu não vou.
— Por que não? Você não me conhece e tudo que eu tenho feito é ser desagradável com você. Então por que não vai embora?
— Eu não sei.  Eu normalmente sou feliz nos meus empregos, mas aqui...
— Você não é. — Constatou. — Então vá embora. Não seria a primeira. — Disse fechando a porta em sua cara... Ela respirou fundo e continuou falando:
— Eu admito que não tivemos um bom começo, mas eu acredito que todos temos sombras e luz dentro de nós. E acontece que você tem passado mais tempo nas sombras do que na luz. Eu não sei do seu passado. O senhor Patz não disse muito. Eu sinto muito que ela tenha deixado você, mas eu não vou embora. Estarei arrumando a biblioteca se precisar de mim.
Ela permaneceu um tempo atrás da porta, esperando por alguma resposta, mas Tyler – do outro lado, encostado a madeira que os separava –, nada disse. Ana suspirou, tristemente, e foi em direção a biblioteca.
Haviam vários livros espalhados pelo chão. Ela começou a limpa-los e catalogou alguns, mas seu horário já estava acabando, então foi procurar pelo seu patrão, mal humorado, e avisá-lo que estava saindo.
Foi até o escritório, mas a porta estava aberta e não tinha ninguém ali. Ela ouviu barulhos na cozinho e foi até lá.
— Eu pensei que você não tivesse gostado. — Ela disse o olhando se servir de um grande prato da batata. Quando a ouviu ele saltou de susto, quase derrubando o prato.
— Puta merda, menina. Você quer me matar de susto? Eu pensei que já tivesse ido. Quando estiver perto faça algum barulho. Parece um fantasma.
— Eu pensei que as batatas estavam salgadas. — Comentou divertida, apontando para o prato e ignorando seus insultos.
— Estão, mas eu estou com fome e na fome eu comeria qualquer coisa, até isso. — Apontou com o queixo as batatas em seu prato, fazendo-a semicerrar os olhos, indignada. — Já terminou o interrogatório? Seu horário não terminou... — Checou o relógio de pulso. — Há cinco minutos? — Perguntou.
— Já. Eu só vim avisar que estou indo. Até amanhã.
— Por mim não teria um amanhã, mas já que não consigo me livrar de você. — Fez uma careta e ela sorriu de orelha a orelha, feliz por estar ganhando aquela batalha.
— Boa noite senhor, Smith . — Se despediu satisfeita.
— Tanto faz. — Balbuciou, infeliz, voltando a comer as batatas.






                           CONTINUA...

domingo, 9 de julho de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 02







4 anos atrás...



— Vamos lá, você sabe que adora ir nesses eventos. — A mulher loira de sorriso chamativo insistia.



— Não. Você gosta que eu vá — frisou — para que eu possa te exibir. — Sorriu enquanto suspirava.

— E você gosta disso. — Ally apontou com um sorriso vitorioso nos lábios carnudos. 

Tyler sabia que era uma batalha perdida e que eles iriam para essa festa de um jeito ou de outro.

— Está bem. Estarei pronto em uma hora.

Allyson deu um gritinho de alegria e o abraçou pelo pescoço.

— Eu garanto que vou te recompensar por isso. — Prometeu enquanto o assistia subir as escadas. 

Já faziam três anos que estavam casados e o amor que sentiam um pelo o outro no início do relacionamento já era passado. A única coisa que os mantinham juntos era o sexo e as festas para a publicidade dos concertos de Tyler. Ele não gosta de se exibir, mas admite que é um ótimo pianista.

— Eu já disse que queria ter ficado em casa?

— Nem comece, Tyler, se você não tivesse feito birra já estaríamos lá.

— Eu não queria ter saído. Você sabe que eu não gosto de sair na semana de um grande concerto.

— Você e suas superstições. Vamos nos atrasar assim. Não dá pra ir mais rápido?

— Ally, olha para o céu. Você sabe que não gosto de dirigir na chuva.

— Pelo amor de Deus, Tyler, é só água. — E nesse instante um trovão cruzou o céu.

— Vamos voltar está bem? — Ele não iria arriscar, sem falar que estava horrível para dirigir, caiam grossas gotas d’água do céu e em uma velocidade que seu limpador de para-brisa não conseguia acompanhar. — Eu prometo que na próxima vez nós vamos.

— Você é um chato. — Respondeu emburrada e Tyler entrou na rotatória para fazer o retorno, mas um cachorro cruzou seu caminho, o fazendo desviar, e com a pista molhada ele perdeu o controle da direção e o carro bateu no acostamento, derrapando e indo barranco abaixo.

Após isso a escuridão os tomou.

~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~

A cabeça de Tyler doía como se ele estivesse com a maior ressaca de sua vida. Seus olhos estavam fechados, mas ao fundo ele conseguia ouvir vozes. Sentia seu rosto pegar fogo, mas também coçava e havia algo que pinicava sua bochecha, sua vontade era esfregar a mão em toda extensão de seu rosto, mas pressentia que se fizesse isso a queimação iria piorar. 

O que estava acontecendo?

De repente ele se lembrou de fragmentos da noite e sua esposa veio rapidamente em sua mente.

— Ally... — A chamou, tentando abrir seus olhos, mas a claridade não permitiu que o fizesse. — Ally... — Chamou-a novamente e sentiu uma mão em seu ombro.

— Tudo bem. Consegue abrir os olhos? — Um homem perguntou e Tyler tentou de novo abri-los, dessa vez se acostumando aos poucos com a luz. Depois de três tentativas conseguiu mantê-los abertos. Notou que estava em um hospital. 

— Quem é você? — Perguntou confuso.

— Eu sou o doutor Holland. Pode me chamar de Jason, está bem? — Sorriu amigavelmente. — Você sabe quem você é?

— Você não sabe quem eu sou? — Retrucou.

— Eu sei quem é você. E você? Sabe quem é?

— Tyler. Tyler Smith.

— Consegue me falar três coisas sobre você, Tyler?

— Eu sou pianista, eu moro em Nova York e sou casado com Allyson Smith.

— A moça que estava com você?

— Sim. O que aconteceu? Ela está bem? Eu quero vê-la.

— Houve um acidente de carro. O seu caso foi grave, mas o de sua esposa foi um pouco pior.

— Eu não... — Ele ainda estava um pouco perdido. 

Como o caso dela poderia ser pior do que o seu? Ele olhou para seu corpo e todos os membros estavam engessados e haviam ferros prendendo seu braço direito e sua perna esquerda. Tyler sentiu um arrepio atravessar sua espinha ao pensar nas consequências daquele acidente. Para ambos.

— Qual o quadro dela?

— Paraplegia. — Tyler separou os lábios, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. — Irreversível, infelizmente. — Acrescentou. — Eu sinto muito.

— Quer dizer que... ela nunca mais vai andar? — Aquilo já era horrível, mas no caso de Ally era ainda pior, visto que ela era modelo. Tyler estava em choque.

— Foi um acidente muito grave, senhor Smith. Ela tem sorte de estar viva. Os dois tem.

— Eu também não vou mais andar?

— Vai andar sim, seu caso não foi tão grave.

— Não foi tão grave? Eu estou engessado e com ferros nos meus braço e perna. Como não foi grave?

— O seu quadro foi dado como paraplegia espástica e flácida. Não houve perda dos movimentos. Não permanentemente. — Explicou. — Um pouco de fisioterapia e alguns tratamentos ajudarão a se recuperar. Ainda ficará com sequelas, mas talvez possa viver normalmente.

— É isso? Minha esposa nunca mais vai andar e eu talvez possa viver normalmente? Eu sou pianista. Eu dependo dos meus movimentos na minha carreira, senhor Holland. 

— Eu entendo, mas não há mais nada que possamos fazer, senhor Smith. Eu sinto muito. — Repetiu, soando dessa vez mais sincero.

— Eu aposto que sente. Com seus braços e pernas perfeitos. — Vociferou sarcástico. — Eu preciso avisar à alguém que estou aqui.

— Já avisamos. Como eu disse, sabemos quem o senhor era assim que foi trazido. Já chamamos o doutor Patz.

— E por que ele não está aqui? — Perguntou praticamente gritando.

— Ele está, ele...

— Então o mande entrar. Agora! — O médico suspirou e saiu. Ele sabia que pessoas como Tyler tinham, não apenas, respeito por onde passavam, mas também se impunham com certo ar egocêntrico e mimado até. 

Logo o pai de Tyler, Charles Patz, entrou no quarto. 

— Pai! Deve ter alguma coisa. — Disse assim que viu o homem de cabelos claros, com alguns fios grisalhos, se aproximando de sua maca.

— Eu sinto muito, Tyler.

— Não... Ally, ela está...

— Tyler... Olhe pra mim, filho. — Ele pediu e Tyler o obedeceu.

— Não há nada que possamos fazer por ela. O quadro dela é irreversível. Vamos fazer de tudo para deixa-la o mais confortável possível em sua nova condição.

— Ela me odeia, não é?

— Ela está com raiva agora, filho, mas vai passar.

— E se não passar?

— Foi um acidente, Tyler. Pode ser difícil, mas essa é a realidade de vocês agora. — Suspirou. — O importante é que vocês estão vivos. — Os olhos de Charles brilhavam com as lágrimas que ameaçavam cair. 

Felizmente seu filho estava bem e era aquilo que realmente importava pra ele. 

Mais tarde, naquele mesmo dia, Tyler descobriu que não era só seu corpo que estava diferente. Além da perda de reflexos, ele ganhou uma cicatriz no rosto. Uma que ia desde sua orelha esquerda até o canto da boca, mas como seu pai havia dito: essa era a realidade deles agora.

Passaram-se algumas semanas e Tyler já havia retirado os pontos do rosto, mas seu corpo continuava engessado, aquela situação o estava matando por dentro, já não aguentava mais. Queria que tudo aquilo fosse um pesadelo, o problema é que todos os dias ele acordava e continuava preso àquela maca como uma lembrança constante de que sua vida estava arruinada. Assim como a de sua esposa.

Ally ficara algumas semanas no hospital também, mas naquele dia ela teria alta. A raiva e a dor a consumiam. Ela não acreditava que aquilo havia acontecido. 

Antes de ir para casa ela pediu para que sua mãe a levasse até o quarto de Tyler, pois queria vê-lo, queria falar com ele, precisava dizer o que estava preso em sua garganta desde o dia em que despertou naquele hospital sem os movimentos das pernas.

A porta do quarto foi aberta e Tyler rapidamente olhou para lá. Ele sentiu os pelos de seu corpo se eriçarem ao ver Ally naquela cadeira de rodas, mas o que realmente o fez se sentir o pior homem da face da Terra foi o olhar dela, carregado de ódio.

— Você fez isso, Tyler. — O acusou assim que entrou por completo no quarto. — Eu estou presa nessa maldita cadeira de rodas por sua causa. Eu te odeio tanto, você não tem ideia do quanto! — As lágrimas molhavam seu rosto.

— Vamos, Ally. — Sua mãe nem sequer conseguia olhar para Tyler, apenas acatou ao pedido da filha, mas por ela, elas estariam bem longe dali, tentando achar alguma cura para Allyson

— Não! Ainda não. 

— Ally, eu sinto muito. — Tyler tinha um nó na garganta e seus olhos ardiam. — Eu sinto muito.

— Sentir muito não vai fazer eu andar de novo! Você destruiu minha vida. É tudo culpa sua! — Tentou acalmar a respiração. — Eu te odeio. — Sussurrou, mas ele ouviu. 

— Minha situação também não é a das melhores. Eu não vou poder voltar a tocar piano. — Retrucou em um lamento.

Allyson o olhou com desprezo.

— Então acho que estamos quites. — Sorriu sem humor. Tyler sentia seu coração sendo arrancado de seu peito. — Me tire daqui, mãe. — Pediu à mulher mais velha, com alguns fios brancos.

Logo Tyler ficou sozinho no quarto. E mal sabia ele que aquela solidão estava apenas começando. 

                           CONTINUA...




domingo, 2 de julho de 2017

Ela me deixa louco - PRÓLOGO






Primeiro quero agradecer a todos que tem acompanhado Vingança para o mal. A história vai fazer uma pequena pausa, mas logo retornará. Enquanto isso, vocês podem conhecer meu outro bebê. Ela me deixa louco. 

Sinopse:

Depois de um grave acidente de carro, Tyler ficou com algumas sequelas e problemas de coordenação, porém, mesmo precisando de ajuda, seu orgulho era maior e ele sempre conseguia se livrar de todos os cuidadores que seu pai, Charles, havia contratado até então. Será que a chegada de certa cuidadora, que se diz sua nova assistente, pode  fazê-lo ver a vida com outros olhos?










Ana checou o endereço pela terceira vez na última hora e conferiu suas roupas, calça jeans, camisa de alcinha branca, agasalho cinza e sapatilha vermelha, ok, estava apresentável. Ela parou no portão e se identificou ao porteiro, que já estava ciente de sua chegada, diferente do dono da residência.

Ela estacionou sua picape na entrada da mansão luxuosa, respirou fundo e foi em direção a porta. Não passava das nove da noite, Ana sabia que provavelmente não seria bem recebida, não pelo horário, mas sim pela má reputação que seu empregador tinha. Ele era conhecido entre os assistentes de saúde como Smith, o terrível.

Quem diabos pode ser uma hora dessas? — Uma voz aveludada trovejou do outro lado da porta. — O que? — Ele perguntou abrindo a porta de uma vez.

Ele usava calça moletom cinza, camisa de manga longa azul– que realçava seus olhos, duas lindas safiras – e trazia no rosto um semblante que berrava “cai fora”. Seu cabelo era uma bagunça, mas uma bagunça muito convidativa, não como aquelas que te espantavam. Em seu rosto havia uma cicatriz, Ana não pôde deixar de pensar que aquilo não o fazia ficar feio, pelo contrário, lhe trazia um ar sexy, sim, ela admitia, tinha um gosto um tanto incomum.

Resumindo, Smith, o terrível, poderia ser terrível, mas era deslumbrante.

—Olá, você é o senhor Smith? — Ana perguntou usando sua voz mais simpática.

— Quem é você?

       — Me chamo Ana. Bem, Anabeth Miller, eu serei sua assistente. — Tyler a mediu dos pés à cabeça e revirou os olhos.

Mais uma que seu pai jogava sobre ele na tentativa de “ajuda-lo”, droga! Ele não precisava de ajudar pra nada, estava muito bem sozinho. Aquelazinha podia refazer seu caminho e nunca mais dar o ar da graça... apesar de ser linda e, bem, não! Que fosse para o quinto dos infernos!

— Vá embora. — Ele disse fechando a porta, mas ela foi mais rápida, colocando o pé no caminho e entrando na casa.  Ele a olhou como se ela fosse louca por fazer isso.

— Espere eu só quero conver...

— Eu não preciso de uma babá. — A interrompeu de forma rude. Já estava cansado de toda aquela situação.

— É claro que não, Tyler . Eu posso te chamar de Tyler ?

— Senhor Smith está bom. — Ana corou pela tentativa de intimidade rejeitada e continuou:

— Claro, senhor Smith. Mas eu não estou aqui como sua babá eu...

— Claro que não. Já que mal saiu das fraldas, não é mesmo?  Diga, senhorita Miller, quantos anos tem? Não parece ter mais que 18.

— Tenho 22, senhor.  E como estava dizendo...

— Não faz muita diferença pra mim o que estava dizendo, senhorita. Como eu disse, não preciso de uma babá. Não me leve a mal. Você é bonitinha e parece irritantemente feliz. — Arqueou a sobrancelha e sorriu sem humor, fazendo Ana separar os lábios em um adorável “oh”. — Mas eu quero ficar sozinho. Foi por isso que eu, gentilmente — a palavra saiu carregada de sarcasmo —, dispensei os últimos 4 assistentes, como a senhorita se autodenominou, e é por isso que a senhorita será a quinta. — Tyler  disse se virando e indo em direção a sala. Ana notou que ele mancou por todo o caminho e usava uma bengala para se locomover. — Não deixe a porta bater em sua bunda ao sair.

— Eu estou de saída, mas só por que meu expediente não começa até amanhã. Vejo o senhor de manhã. Estarei aqui as 9:00AM com sua agenda na mão.

Tyler ouviu isso e respirou fundo virando-se de volta para ela.

— Eu não tenho uma agenda e eu já disse que não a quero aqui. Além disso, eu não acordo antes das 9:00AM.

— Não tem problema. Terei grande prazer em ficar apertando a campainha até o senhor abrir a porta.

Tyler semicerrou os olhos com o cinismo da garota.

— Quanto meu pai está te pagando? — Ana o olhou confusa. — Se eu triplicar o valor você vai embora?

— Não é questão de dinheiro, senhor Smith. — Mentiu. — Eu gosto do meu trabalho. — Isso era verdade.

— Inferno! Onde ele achou você? Você é mais insistente que os últimos.

— Vejo o senhor amanhã. — Disse acenando e sorrindo, enquanto saia da casa.

 Tyler travou o maxilar. Teria que pegar mais pesado para se livrar dessa. 


   CONTINUA...
 Próximo Capítulo

domingo, 25 de junho de 2017

CAPÍTULO 11- UM ORIGINAL

Vingança para o mal - 11: Desistir não é uma opção. 





  
  
— Mariana Alonzo Alves! – Eduardo rugiu assim que ela passou pela porta.
— Algum problema, tio? – Perguntou o olhando.
— Mônica me disse que você não vai mais fazer a prova de ingresso. É verdade?
— É. – Respondeu naturalmente se jogando no sofá.
— Por que, Mari? Eu não entendo. Quando você era pequena, insistiu tanto para que eu a treinasse. E para que? Para largar tudo? Agora que é uma das melhores.
— Eu mudei de idéia, tio. Eu posso fazer isso, sabia? – Respondeu irritada indo para seu quarto.
Eduardo não entendia o que havia acontecido. Mari havia acabado de completar 18 anos. E ia fazer a prova de ingresso para a polícia, e simplesmente havia desistido? Para que ela teve todo o trabalho de convencê—lo quando era pequena, se iria desistir? Por um lado estava aliviado por sua sobrinha desistir dessa vida. Sabia o quão perigosa poderia ser. Mas também estava confuso. Tivera tanto trabalho para convencê—la a não treinar e a fazer outras atividades , mas quando havia cedido e a treinado, ela havia desistido. Ainda se lembrava daquela época.
Flashback On
Eduardo estava tentando, mas sua vida virou de cabeça para baixo e ele sabia que não podia sustentar por muito mais tempo aquela situação, ele precisava de alguém para cuidar de Mari a tarde, felizmente Mônica lhe deu uma boa sugestão e ele resolveu comentar a respeito com Mari naquela tarde, enquanto ela terminava sua lição de matemática, deitada de bruços no chão.
— Mari, o que você acha de fazer algumas atividades complementares na escola? Eu conversei com a diretora e ela disse que há várias coisas legais que você pode fazer depois da aula.
Mari levantou os olhos na direção dele, sem expressar nenhuma reação. Ela continuava com esse semblante neutro, aquele que o fazia se perguntar o que diabos ela estava pensando?
— Tipo o que?
— Tem ballet, música, esportes, artes, teatro. Muitas coisas, acho que você vai gostar. — Disse animado, tentando passar para ela esse sentimento, mas ela apenas voltou para sua atividade, ignorando—o.
Deus, aquilo estava começando a tirá—lo do sério. Ele notou que sempre que dizia alguma coisa que ela não gostava, ela o ignorava e ele não iria mais tolerar aquilo.
— O que acha? Diga alguma coisa. — Tentou não soar muito irritado e ela voltou a fita—lo.
— Dizer o que, tio? É você que manda em mim. Se quiser me deixar no seu apartamento...
— Nosso. — A corrigiu e ela se sentou no chão.
Seu. Aquela não é minha casa, eu odeio aquele lugar, eu odeio ter que comer a mesma coisa de micro—ondas todos os dias, eu odeio ter que ficar aqui. — Pela primeira vez Eduardo a ouvia dizer alguma coisa sobre sua nova vida, pois ela sempre o olhava indiferente e o obedecia, mas nunca dizia o que estava sentindo ou pensando, ele admitia que via aquilo como um bom progresso, apesar das palavras dela o terem o magoado.
Ele estava tentando ajudá—la, estava mesmo. Tudo ainda era muito novo para ele também, será que ela não podia ter um pouco mais de paciência? A mesma paciência que ele estava tendo com ela?
— Então não tenho nada pra falar por que não importa. — Sibilou. — Se você vai me deixar no apartamento, aqui, na escola. — Jogou de ombros. — É você quem vai decidir mesmo.
— Importa sim. Claro que importa. — Se levantou. — Eu quero te ajudar, Mari.
A garota se levantou também, seu tio era alto – 1,88 –, então era muito ruim conversar com ele quando ele estava em pé por que ela sempre tinha que ficar olhando pra cima e com ele em pé e ela no chão era pior ainda.
— Se quer me ajudar então por que você não me treina? Me treina pra mim me defender.
Eduardo travou a maxilar. Aquele assunto de novo.
Mari há uns três dias cismou que quer aprender a lutar como ele para que possa se defender, mas ele já havia dito que aquilo não era necessário.
— Já falamos sobre isso.
— Então por que você fica querendo saber o que eu quero se o que eu quero você não me dá? Que idiotice. — Se exaltou e ele semicerrou os olhos.
— Olha como fala.
Ela desviou o olhar e voltou a fita—lo em seguida, seu semblante ficando neutro de novo.
— Eu já disse que não tem necessidade disso, Mari. Eu vou te proteger, nada vai te acontecer.
— Como sabe?
— Eles não vão vir atrás de você.
— Você sabia também que eles não viriam atrás dos meus pais? — Sua pergunta saiu inocente, a curiosidade em cada palavra, mas para Eduardo foi como um balde d’água fria.
— Não vamos mais falar sobre isso. Você é uma criança de seis anos, Mari, pelo amor de Deus, garota! Você é uma criança, eu entendo que você está com medo, mas não tem que querer aprender a lutar, vai brincar, vai pintar, vai fazer alguma coisa que uma criança normal faz. — Se exaltou, não medindo suas palavras, mas logo ele tentou arrumar o que disse. — Desculpa — se ajoelhou, ficando quase na altura dela —, eu não...
— Teatro. — Respondeu simplesmente voltando a se debruçar sobre seu caderno de matemática.
Eduardo engoliu em seco e passou a mão pelos fios curtos de seu cabelo negro.
Céus, ele não sabia lidar com uma criança, ele não sabia o que estava fazendo. Ele nunca se sentiu tão inseguro. Em todas as missões que ia era sempre ele que tomava a frente e dominava a situação, mas agora, com Mari, ele se sentia mais perdido do que bala em tiroteio.
~*~*~
Mari já não passava mais suas tardes no escritório do tio, depois das aulas ela fazia teatro e artes, pois ainda lhe sobrava um tempo até que seu tio a buscasse, agora as 5:30 da tarde. Contudo ele sempre se atrasava e aparecia depois das 6:00PM, por que saia do trabalho a essa hora e até chegar no colégio levava um tempo.
Depois eles jantavam – geralmente era congelados, mas Eduardo começou a cozinhar algumas coisas, admitia que no começo ficavam horríveis, mas até que estava começando a pegar o jeito – e ele a ajudava na lição de casa (quando ela mesma não fazia enquanto o aguardava na escadaria do colégio) e por fim a colocava—a para dormir.
Certa noite ele acordou com alguns ruídos e logo pegou sua arma na gaveta do criado mudo e pulou da cama, indo com cautela até a origem do barulho.
Choque, horror e raiva devastaram sua alma ao notar que o barulho vinha de dentro do quarto de Mari, ele viu pela brecha da porta que ela havia pendurado o travesseiro – de um jeito bem engenhoso – no guarda—roupa e o socava. Ela socava e se abaixava, socava e se abaixava.
— Mariana. — Ele empurrou a porta, assustando—a. — O que pensa que está fazendo?
Ela se recompôs.
— Aprendendo a me defender. — Suas palavras saíram sem nenhum pingo de emoção.
Eduardo ficou boquiaberto.
— Eu disse não!
— Você disse que não ia ajudar eu a me defender, mas não disse que eu não podia treinar sozinha.
Ele enxergou vermelho, não estava acreditando que sua sobrinha estava fazendo um absurdo daqueles.
— Para com isso. — Colocou a arma na bainha da calça moletom e a segurou pelos ombros. — Para! Não quero você fazendo essas coisas, Mariana. Você é uma criança de seis anos de idade, já deu! Não quero mais saber disso. — Ele a soltou, seu coração estava acelerado.
Ele sabia que a morte de seus pais ainda estava recente, mas não achou que ela fosse ter essas reações. Desde o dia em que ele a encontrou nunca mais a viu chorar. Ela devia chorar, não devia? Devia conversar com ele sobre isso, devia fazer perguntas. Ela devia querer ser consolada, não é?
— Sete. — Foi apenas o que respondeu, olhando—o dentro dos olhos, séria.
— O que? — Ele franziu o cenho.
— Fiz sete anos dia 13 de setembro.
Eduardo sentiu o chão desaparecer debaixo de seus pés.
Ele havia esquecido o aniversário de sua sobrinha, de sua sobrinha que havia perdido os pais, de sua sobrinha que a cada dia que passava se mostrava cada vez mais distante.
— Mari — ele sentiu seu coração se apertar e uma grande vontade de chorar, só queria abraça—la e dizer que sentia muito, que se pudesse traria seus pais de volta, mas... mas ele não podia. — Mari, eu — passou as costas da mãos pelos olhos, limpando a lagrima que escorreu e engoliu em seco, controlando—se —, eu não me lembrava. Me desculpe, você quer uma festa? Podemos fazer uma festa bem legal pra você, podemos chamar seus amigos.
Mari balançou a cabeça negativamente e abriu, pela primeira vez, um pequeno sorriso, fazendo Eduardo perder o ar.
— Não precisa, tio. Agora eu vou dormir. — Ela deitou na cama e se cobriu, ficando de costas para o tio, o sorriso desapareceu e ela fechou os olhos, pensando que o teatro poderia realmente ser útil.
Flashback Off

Eduardo pegou o telefone e discou o número de Mônica. Precisava sair e conversar. Alguma coisa estava errada, mas mesmo com sendo ótimo em seu trabalho de investigador, não sabia o que era.

CONTINUA...