segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Ela me deixa louco - Capítulo 12









Ana não trabalhava aos sábados, então Tyler pediu que ela viesse apenas no final da tarde. Ele havia planejado algo especial para aquela noite.

— Tyler? — Ana o chamou, entrando na casa. — Tyler?

— Olá. — Ele disse na soleira da porta da sala. Ele vestia um smoking e a observava atentamente.

— Uau! — Ana o olhou e o desejou com os olhos. Ela nunca havia sentido esse tipo de atração por ninguém. — Eu sabia que você era lindo, mas vestido assim... — Ela disse e ele sorriu.

— Que bom que gostou. Porque eu tenho uma surpresa para essa noite.

— Uma surpresa? E o que é?

— Não é surpresa se eu contar.

— Sem graça. Mas você podia ter avisado. Eu podia ter, sei lá, me vestido melhor. — Ana disse olhando para as próprias roupas.

— Aí você não poderia usar aquilo. — Ele disse apontando para um vestido que estava pendurado na sala.

— Tudo bem, agora eu sei que você não está brincando.

— Você disse que queria sair. Eu estive pensando nisso. Você passa a semana toda nessa casa. Merece alguma diversão.

— Tyler, você não precisa...

— Não, Ana. A razão pela qual eu não saio, são os olhares das pessoas sobre mim, mas eu percebi que não me importo mais. Contanto que estejamos juntos, não me importaria nem se me apontassem.

— Isso é ridículo. A única razão das pessoas olharem para você é que você é muito gostoso. — Ela disse e ele riu.

— Viu? Como alguém se importaria com olhares tendo alguém como você ao lado? Agora vá se vestir ou vamos nos atrasar.

— Ele é lindo Tyler — elogiou o vestido —, mas eu não posso. — Concluiu e ele a olhou confuso.

— Por que não?
— E se eu manchar ou rasgar? — Perguntou temerosa e ele riu. — Ei, não ria. Você sabe que é possível.

— Não se preocupe com isso, Ana. É um presente.

— Não é, não.

— Você sempre tem que ter a última palavra, não é? Escute, eu já comprei, então, você pode escolher usá-lo ou deixar guardado, o caso é que, ele é seu de qualquer forma.

— Tá bom. Mas não quero que você pense que está tudo bem ficar comprando coisas caras para mim. Não precisamos deixar nossas diferenças ainda maiores, ok?

— Então você pode gastar suas economias para me dar um celular, mas eu não posso te dar um vestido? Não parece muito justo. — Semicerrou os olhos.

— Não é para ser justo. É para ser assim e pronto.

— Já te disseram que você é muito teimosa?

— Eu digo isso para mim mesma todos os dias. — Ela provocou.

— Está bem. Agora vai.

— Eu posso dirigir? — Sorriu.

— Não. — Respondeu rapidamente, tirando o sorriso do rosto dela. — Vamos de táxi. — Finalizou e ela revirou os olhos.

— Não custava tentar. — Jogou de ombros.

— Os sapatos estão no quarto.

— É claro que estão. — Ana resmungou subindo as escadas.

Meia hora depois, ela – nervosamente – se olhou no espelho. O vestido cobria bem seu corpo, ele batia na altura de seu joelho. Ana trançou o cabelo rapidamente e saiu do quarto. Ela estava descendo as escadas quando Tyler se virou para olhá-la, a fazendo corar.

— Não tenho mais certeza se quero sair.

— Por que não? Eu aceitei o vestido.

— Exatamente. E você está deslumbrante nele. Não quero outros caras babando em você.

— Você é absurdo. — Ela disse sorrindo.

— E você é linda.   Retrucou. 



Tyler chamou um taxi e eles foram até o teatro.

— Já veio aqui antes? — Ana perguntou enquanto Tyler a guiava para seus lugares.

— Sim. Eu gostava de vir aqui quando era mais novo.

— Aqui é tão bonito. — Ana comentou deslumbrada com a vista.

O concerto durou duas horas e depois eles foram até um restaurante. Os dois fizeram seus pedidos e enquanto aguardavam o retorno do garçom, iniciaram uma conversa carregada de banalidades quando ouviram uma voz:

— Tyler?

Ele não se mexeu.

— Eu acho que é com você. — Ana disse olhando para a pessoa que o chamou.

— Acho que sim. — Respondeu com um suspiro e se virou. Do outro lado do restaurante, Adam (o homem que o chamara) se levantou indo em sua direção.
— Eu não acredito. Tyler Smith.

— Olá, Adam.

— Quanto tempo não vejo você. Você está muito bem. Apesar de tudo, não é?
— Sim, estou.

—Essa é Charlotte. Minha noiva.

—Oi. O Adam fala muito de você.

— Mesmo? — Ele perguntou ironicamente e Ana cutucou sua perna.

— É claro. — Charlotte respondeu docemente.

— É um prazer. Essa é minha namorada, Ana. — Sorriu para a esta última, que devolveu o gesto. — Ana, esse é o Adam. Ele é músico também.

— Muito prazer. — Ana disse estendendo a mão.

— Bom, eu não quero incomodar. Nós já estávamos indo embora e eu vi você. — Explicou. — Aqui. — Entregou-lhe um cartão. — Meu celular. Me liga Tyler. Vamos marcar de sair um dia desses.

— Claro, quem sabe?

— Foi um prazer, Ana. — Adam disse gentilmente e Ana sorriu, pegando o cartão que Tyler mal havia olhado, e então eles saíram.

— O que foi? — Ana perguntou acariciando a mão dele que estava sobre a mesa.

— Nada.

— Por que ficou estranho depois que seu amigo saiu? Não gosta dele?

— Não é isso. — Respondeu sério. — Adam é um cara legal.

— Então qual o problema?

— O problema não é ele. São as coisas que ele me lembra. Os concertos que eu tocava, as grandes turnês que fazíamos. Eu estou sendo ranzinza, desculpe. Era para ser uma noite divertida.

— Ei, eu estou me divertindo. E isso é importante para você. — Ambos sabiam que suas palavras eram verdade. — E eu acho que você toca muito bem. — Acrescentou sorrindo.

— Não sei se acredito em você. Você não parece muito imparcial. — Rebateu, devolvendo o sorriso.

— O mesmo vale quando você diz que eu sou deslumbrante e essas coisas.

— Mas é verdade.

— Assim como quando eu digo que você toca bem, também é verdade.

— Poderíamos discutir isso a noite toda e não chegaríamos em um acordo.

— Poderíamos, mas eu prefiro fazer outras coisas a discutir com você. — Ela disse sorrindo e bebendo o vinho.

Eles terminaram o jantar e entraram no taxi.

— Você quer que eu te deixe na sua casa? — Ele perguntou enquanto ela se aninhava em seus braços no banco de trás.

— Eu queria passar a noite com você. — Respondeu levantando os olhos para ele, que sorriu.

— Seu desejo é uma ordem, senhorita.

Chegaram na casa e foram direto para o quarto; Tyler ainda a admirava.

— Por que está me olhando assim?

— Assim como?

— Como se eu fosse a coisa mais bonita que você já viu. — Respondeu soltando o cabelo.

— Porque você provavelmente é.

— Não pode dizer coisas assim e não querer que eu me apaixone por você.

— Eu acho justo que você se apaixone, já que eu estou. — Ele disse, puxando-a para perto e a beijando. As mãos dela foram até os cabelos dele.

Ana afastou as roupas do pianista e desabotoou a camisa dele, enquanto ele a empurrava delicadamente até a cama, descendo o zíper do vestido dela.

— Não, não. Espera. — Ela falou mais alto, com um olhar aterrorizado.

— Desculpe, Ana. Eu pensei... Tudo bem, nós não precisamos...

— Não. Não é isso. Mas tem uma coisa que eu não te contei.

— O que é? — Tyler perguntou preocupado.

— Lembra, que eu disse que meu pai não era uma boa pessoa? E que eu não queria falar sobre ele?

— Lembro.

— Existe um motivo para isso. — Ela disse abraçando o próprio corpo, já com lagrimas nos olhos. Tyler se aproximou lentamente e acariciou seu rosto.

— Fala comigo. — Ele pediu

— Quando eu era pequena, as coisas eram... Diferentes.

— Diferentes? Diferentes como?

— Meu pai sempre quis um menino, então quando veio uma menina ele... Digamos que ele não ficou muito feliz. Minha mãe morreu no parto. Éramos ele e eu. Minha tia, a irmã da minha mãe, me visitava de tempos em tempos. Foi assim que eu passei os primeiros oito anos da minha vida, me sentindo mal por ser uma garota. Ele cortava meu cabelo bem curto e todas as minhas roupas eram largas. Ainda assim, não era o bastante pra ele. Então ele me matriculou no time de futebol. Ele dizia que aprendeu muitas coisas sobre a vida quando era mais novo. E tudo graças “aos caras”. Ele disse que isso iria me ajudar. — Disse enjoada com as lembranças.

— Ana, não precisa...

— Tudo bem.  Eu tenho que dizer, já faz muito tempo. O time era apenas para meninos, mas como meu pai era o chefe de polícia da cidade, abriram uma exceção para mim. Os meninos eram... Cruéis. Sempre mexiam comigo. Eu não tinha influências femininas, então não era confortável com meu corpo, mesmo com oito anos.  Eles nos obrigavam a correr antes do treino. O campinho era longe de casa. Eu tinha que pegar um acesso. Sempre que acabava, já era quase noite. Então assim que o treino acabava, eu corria para casa.

— Ana...

— Eles me provocavam e eu os ignorava, isso funcionou por um tempo. Eu me lembro que estava tão cansada dos comentários e brincadeiras maldosas que eu revidei. Eu precisava.  Eu ofendi um dos meninos, não me lembro do que foi. Mas foi o bastante para eles. — Disse olhando para baixo. — Eles me seguiram até em casa. Era um acesso antigo, e eu tinha que passar por uma ponte. Eles me cercaram e começaram a me empurrar entre eles. Eu tentei fugir, mas eles eram muitos. Eu estava tonta e me desequilibrei. Eu lembro que usava uma calça grossa. Mas estava com uma regata. Eu rolei barranco a baixo.

 No final do barranco havia um depósito de lixo. Eles haviam descarregado um caminhão de cacos de vidro na semana anterior. Eu ficava lá, vendo o sol refletido no vidro. Eu achava bonito. Mas quando caí, e rolei sobre os cacos, esqueci de toda a beleza que havia naqueles vidros. Eu só tive tempo se cobrir o rosto. A dor era... Insuportável. Havia vidros para todos os lados e sangue. Eu estava desorientada, e as risadas dele... Eles estavam me vendo sangrar e riam.

— Para! — Tyler rugiu, sentindo a dor que Ana sentia. A raiva fazia seu sangue ferver.

— Depois de um tempo eles me deixaram lá. Mesmo com a dor dos cortes, eu rastejei até a superfície e sai. Liguei para minha tia e contei o que havia acontecido, ela havia me dado seu telefone uns meses atrás dizendo que eu podia ligar para ela se precisasse. Ela me buscou no mesmo dia. Julian estava fora de si. Ela entrou na justiça para requerer minha guarda; ganhou facilmente.  Não vejo meu pai desde então.

— Eu sinto muito que isso tenha acontecido com você.

— O motivo pelo qual estou te contando isso é que... Eu ainda tenho algumas marcas dos cortes pelo meu corpo. E quando você começou a abrir o zíper eu congelei, com medo do que você iria pensar...

— Achou que as marcas seriam um problema?

— Eu não sei. Elas estão por todos os lados e algumas estão feias, mesmo depois de tantos anos.

— Então quer dizer que você nunca...

— Não. Eu ainda não perdi meu cartão V, se é isso que está perguntando.

— E você quer? Quer ficar comigo? 
— Eu quero. Muito, mas tenho medo do que vai pensar.

— Confia em mim?

— Mais do que em qualquer um. — Tyler começou a beijar seu pescoço e abriu a lateral do vestido, descendo a parte dos ombros enquanto Ana abria a calça dele.

Quando sua calça estava no chão ele terminou de tirar o vestido dela lentamente. As marcas estavam lá. Algumas maiores e mais visíveis, mas a perfeição das curvas dela se sobressaiam. Tudo o que ele via era o quão linda e perfeita ela era. Ele a encarou sem palavras, mas ao olhar em seus olhos, viu que ela confundia seu olhar de adoração com de repulsa. Então ele segurou sua nuca e a beijou.
— Eu certamente não esperava por isso. — Ele disse entre os beijos.

— Eu entendo. Tudo bem sentir repulsa. — Comentou cabisbaixa.

— Repulsa? Ana, você é absolutamente de tirar o fôlego. Eu estou deslumbrado.

— Como? Por quê?

— Por quê? Porque você é absolutamente linda. Por dentro e por fora. — Tyler respondeu e voltou a beijá-la.

Depois de alguns beijos ela se sentiu mais segura e confiante, então colocou sua mão dentro da boxer dele, sentindo seu tamanho e a tirando logo em seguida.  O que ela não esperava era que ele fosse tão... Grande.  Ana cessou os beijos e olhou para seu comprimento por um instante.

— Você parece preocupada.

— Eu estou

— Eu vou fazer isso ser bom. — Ele se deitou sobre ela, mas mantendo seu peso em seus braços o quanto pôde. Ficando entre suas pernas, ele se lembrou do preservativo. — Camisinha?

—Ei, eu sou a virgem aqui, lembra?

— Bem, não é como seu eu tivesse usado uma nos últimos anos. — Disse ainda admirando seu corpo. — E o que fazemos agora? — Perguntou saindo de cima dela.

— Eu tomo pílula.
— Eu nunca fiz sem proteção e depois do divórcio fiz vários exames. Eu estou limpo, confia em mim?

— Com toda minha vida. — Ele sorriu.

— É tão linda. — Tyler disse, beijando seu pescoço e a empurrando levemente para trás. Ana sentiu suas costas encostarem na cama. Tyler colocou suas mãos na cintura dela e continuou a beijar seu pescoço. As mãos de Ana estavam agarradas ao seu cabelo, lhe dando leves puxões. — Eu não quero machucar você, mas isso pode doer.

— Confio em você. — Repetiu, olhando em seus olhos. — Eu amo você. — Disse acariciando o rosto de Tyler, que beijou sua mão.

— Eu também te amo.  Não sabe o quanto te esperei. — Tyler sorriu e voltou a beijá-la enquanto avançava. Ele ficou parado enquanto ela se acostumava com as sensações. Ana sentiu uma fisgada, como se algo se partisse. Ela abriu os olhos e encontrou o olhar de Tyler preocupado.

— Tudo bem. Só fica parado um pouco.

— Já vai passar. Eu prometo que só vou me mexer quando você disser.
Ela respirou fundo e se mexeu um pouco, testando o nível da dor e assentiu, dando carta branca para que ele voltasse a se mexer. As pernas dela se cruzaram em sua cintura, o fazendo ir mais fundo. 

Ela estava tomada pelas sensações e tudo que conseguia fazer era gemer e se agarrar mais a ele. A perna de Tyler começara a dar alguns espasmos de dor, mas ele não se importava. Se sentia bem com ela, como se estivesse em casa pela primeira vez na vida.

Seus movimentos ficaram mais rápidos e ele não conseguia mais manter o peso em seus membros. Ana estava perdida nas sensações, mas ela queria mais. Usando a força das pernas, ela o prendeu e os girou na cama. Tyler a olhou com uma mistura de surpresa e desejo.

 Tyler desceu um pouco as mãos e a ergueu, fazendo-a subir e descer cada vez mais rápido. Ele se sentou, com ela ainda em seu colo, os dois gemendo cada vez mais alto e o suor de seus corpos se misturando. Os seios dela estavam livres e balançavam cada vez mais em sincronia com as estocadas dele.

Ela tombou a cabeça para trás, lhe dando livre acesso ao seu pescoço, que Tyler logo tomou para si com beijos molhados, ele foi descendo a carícia por sua clavícula e seios. As mãos deles estavam entrelaçadas e as pernas de Ana enroscadas em sua cintura, o apertando cada vez mais forte, enquanto seu ápice se aproximava. Ele desceu os beijos pelo vale entre os seios dela, a fazendo gemer seu nome ainda mais alto. Ela se movimentava e rebolava em seu membro, gemendo cada vez mais alto. Incapaz de se controlar.

— Tyler...

— Sim, Ana. — Ele gemeu e ela se agarrou a ele com mais força, enquanto sentia seu orgasmo a atingir, tirando todas as forças que tinha.

Mais algumas investidas e Tyler alcançou o clímax também.

Ele soltou uma de suas mãos, acariciando suas costas, e depois se afastou um pouco, a deitando do seu lado. Ele a observou, ela nunca esteve tão perfeita. Seus cabelos castanhos esparramados pelo travesseiro, suas bochechas coradas, seus olhos fechados. Ela só conseguia se concentrar nas sensações que sentia. A mão de Tyler passeou pela lateral de seu corpo, chegando até seu quadril e subindo novamente, arrancando dela um sorriso.


Ele estava agarrado a ela com todas as suas forças e ela se remexeu um pouco, o fazendo sussurrar:

— Não. Por favor, não me deixe agora. — Ele devia estar sonhando e Ana acariciou seus cabelos, sussurrando de volta:

— Eu não vou. — Ele abriu os olhos, a admirando.

— Obrigado.

— Pelo que exatamente? — Ela perguntou confusa.

— Por ficar. Mesmo quando eu tentei fazer você ir.

— Não existe outro lugar que eu gostaria de estar agora. — Ela disse enquanto brincava com o cabelo dele.
— Isso me assusta. Às vezes, eu penso que isso é um sonho ou talvez signifique que você é muito teimosa ou então que gosta de alguém que estava quebrado.

— Você não estava quebrado. Só perdido. E precisava de mim.

— Eu ainda preciso

— Isso é bom. Porque não pretendo ir a lugar algum. — O assegurou e os dois pegaram no sono, agarrados um ao outro.



 CONTINUA...
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domingo, 10 de setembro de 2017

Ela me deixa louco- Capítulo 11







— Você nunca ficou calada tanto tempo. — Tyler disse.

— Tá bem. Eu não sei o que dizer.

— Isso está me preocupando na verdade. Eu pensei que fossemos conversar. — Tyler acrescentou e Ana continuou olhando para a pizza, muito concentrada.

— Por que eu? — Perguntou sem conseguir olhá-lo.

— Por que você? Você é linda, inteligente e absurdamente teimosa. Não desistiria de mim nem se eu tentasse. Eu entendo se você disser que não sente o mesmo e que eu estou confundido as coisas.

— Não. A questão não é essa. Não é mesmo.

— E qual é então?

— Qual é? Tyler, eu não entendo. Você é... Bem, você. Não é que eu não me ache bonita ou algo assim, mas porra, olha pra você. Você poderia ter qualquer garota. Qualquer uma. Eu sou uma garota comum.  Sou só eu.

— Você já devia saber que não tem nada de comum em você, Ana.

— Primeiro, como você pode pensar que Chris e eu tínhamos alguma coisa?

— Você não pode me culpar por isso. Você sempre fala dele e tem sempre um brilho nos olhos quando fala. E é meio chocante saber que você não tem namorado.

— A maioria dos caras tendem a fugir quando você fala o que pensa.

— Eu continuo aqui. — Respondeu timidamente.

— Você realmente não se importa com meu jeito, não é?

— Não. Eu comecei a gostar dele. E você não se importa que eu seja um pouco rabugento.

— Algumas vezes, muito rabugento. — Frisou. — Viu? Os caras não querem ouvir isso.

— Sorte sua que eu não sou como os outros caras.

— Então? Como ficamos?

— Eu não sei. O que você sente?

— Você é um cara legal.

— Um cara legal? — Ele perguntou erguendo a sobrancelha.

— É. — Ela disse com um sorriso brincando nos lábios. — Ei, já que somos amigos, o que acha de amigos com benefícios?

— Agora eu sei que você está brincando.

— Por quê?

— Amigos com benefício não tem compromisso. E eu não gosto nem um pouco da ideia de outros caras tocando em você.

— Alguém está com ciúmes. — Ela cantarolou.

— Agora você parece seu amigo Chris.

— Sobre isso. O quanto você ouviu?

— Antes eu quero sua resposta.

— Eu respondo se você responder.

— Com você é sempre assim, não é? Sempre tem um se. Eu perguntei primeiro.

— Eu cresci com a Maggie. Posso fazer isso o dia todo. Só vai ter a sua resposta quando eu tiver a minha.

— Está bem. Eu ouvi sobre você me chamar de odiador de gatos, mas que você me acha um cara muito legal, mas a parte mais interessante é sobre seus sonhos. Agora pode falar.

— Está bem. Você é um cara muito legal e eu meio que passei a gostar de você, mas minha cabeça não processou muito bem e meus sonhos tem sido... Inadequados.

— Inadequados?

— Eu não vou contar, se é isso que você quer.

— Tudo bem. Então também não conto os meus. — Ele disse com um sorriso nos lábios.

— O que? — Ela perguntou chocada.

— Próxima pergunta.

— Próxima pergunta coisa nenhuma. Como assim, os seus?

— Só você pode ter sonhos? — Perguntou com um sorriso torto, que a fez corar. — Eu conto se você contar.

— Não. Não mesmo. Próxima pergunta.

— Sua chata.

— Olha só. Aprendeu alguma coisa comigo. — Lhe mostrou a língua e ele revirou os olhos.

— Está bem. Próxima pergunta. O que você diria se, hipoteticamente, eu te pedisse em namoro?

— Eu diria que por mais tentadora que fosse a ideia, isso é bem rápido e além disso eu sou sua assistente e isso não seria certo.

— Então esse é o problema? Por que eu me lembro de alguém falando que não trabalhava para mim e sim para o meu pai.

— Olhando por esse lado. — Colocou um dedo sobre o queixo, refletindo.

— Então o problema seria só o tempo.

— Basicamente. — Concordou.

— E não os meus problemas?

— Francamente, Tyler, você acha que eu ligo para isso? Você anda com um pouco de dificuldade. Grande coisa. Mesmo que você tivesse três olhos e um mamilo na testa eu ainda gostaria de você. — Ela disse e ele começou a rir. — Além disso, eu já disse, essa cicatriz te dá um ar sexy. Vamos fazer assim. — Umedeceu os lábios. — Começamos isso, mas se não der certo, não quero perder nada que construímos até aqui, está bem?

— Parece muito justo.

— Então se não der certo, nós continuamos amigos. Promete?

— Eu prometo.

— Ótimo, porque mesmo que você dissesse não, eu ainda ia querer beijar você. — Ana disse, se aproximando dele e o beijando.
Algumas semanas se passaram e Ana queria tirar Tyler de casa, mas ele se recusava a sair com ela.

— Vamos... Vai ser divertido.

— Você disse isso da última vez.

— Podemos pegar um taxi. Eu só quero sair com meu namorado. Isso é errado? — Perguntou piscando os olhos para ele.

— Usar a palavra namorado e piscar esses olhos assim é jogo sujo. Você sabe que eu faço quase tudo que você pede quando fala assim

— Então vamos sair?

— Eu disse quase tudo. Então eu acho que não.

— Por favor...

— Não.

— Que tal um acordo?

— Um acordo? — Ele perguntou curioso.

— É. Uma volta. Podemos caminhar. Nada de carros, transito ou guaxinins. — Sorriu. — Eu espero. — Acrescentou, tirando a máscara sorridente e trocando por uma pensativa.

— E o que eu ganho em troca?

— Além do prazer da minha companhia?

— Isso eu tenho todos os dias. E aprecio muito a propósito. — Sorriu.

— Quando você começou a ser tão fofo? — Ela perguntou e ele riu. — Tá. Eu fico uma semana sem fazer perguntas.

— Só uma semana?

— É o máximo que eu agüento.

— Você vai desistir se eu disser que não?

— Provavelmente não.

— Como consegue que eu faça tudo que você quer?

— Eu não consigo que você faça tudo que eu quero.

— Está bem. — Ele disse e ela gritou de alegria. — Uma volta. Apenas uma volta.

— A menos que você queira andar mais. — Disse sorrindo e ele revirou os olhos.
 Eles já estavam quase no final da volta e Ana estava na frente.

— Você é muito lento. — Ela zombou.

— Eu não sei se você reparou, mas eu não costumo caminhar muito. Você tem as duas pernas em ótimo estado para caminhar e ainda sim você vive tropeçando por aí e eu não falo nada.

— Ei...

— Não é legal quando te mostram seus defeitos, não é?

— Eu não disse por mal. — Respondeu baixando os olhos e Tyler percebeu que havia a magoado.

— Eu sei que não. Desculpe.

— Vem. Já terminamos a volta. Estamos quase chegando na sua casa. — O puxou pela mão.
Eles entraram na casa e Ana ainda estava quieta.

— Ei. — Tyler disse, segurando o braço dela gentilmente e ela o olhou. — O que você tem?

— Nada.

— Você está chateada. — Ele afirmou.

— Não.

— Ana...

— Talvez um pouco. Quando eu disse que você era lento...

— Você não quis me ofender, mas ainda sim me chateou, mas eu não tinha que ter sido grosso. Eu sei que você não faz por mal. — Ele disse e ela ainda não o olhava. — Olha, eu não queria ter dito aquilo, mas tente entender meu lado.

— Eu estou tentando.

— Eu não queria magoar você com o que eu disse. Talvez você tivesse razão quando falou que devíamos ir devagar. — Ele disse.

— Você... Você está mudando de ideia? Sobre nós? — Perguntou ainda sem olhá-lo nos olhos.

— Não! Estar com você tem sido a coisa mais certa em minha vida, Ana, mas isso me assusta um pouco.

— Por quê? — Perguntou olhando em seus olhos e podia ver dor neles.

— Porque a última vez que abri meu coração, ela me deixou e se matou logo depois. E honestamente, eu nunca tive tanto medo que a história se repetisse. — Tyler tentou disfarçar a falta de ar que estava sentindo.

— Você está bem?

— Estou. — Respondeu ofegante.

— Tem certeza? — Perguntou e ele não respondeu. — Tyler? — Ela ficou assustada.

— Não.

— O que você tem? — O esforço físico da caminhada havia desencadeado uma crise respiratória. — Tyler? Está me assustando.

— Cha... Charles.

— Vou ligar para ele. — Ana disse, o ajudando a sentar e pegando o celular. — Alô? Doutor Patz? Aqui é a Ana.... Eu não sei, ele estava bem... — Pausa. — Eu não sei. Está bem. Tyler, ele pediu para você mostrar o nível da crise. — Ana pediu e Tyler levantou seis dedos. — Ele levantou seis, Charles, o que eu faço? — Perguntou assustada. — Gondola? Onde eu... Tá bem. Eu vou buscar. — Ela correu para o andar de cima e ao entrar no quarto de Tyler, encontrou um pequeno carrinho ao lado da cama.
Assim que o pegou ela o levou para baixo.

— Charles, o que eu faço com isso? — Pausa. — Regulagem? — Aguardou a breve explicação que se seguiu. — Tá bom. — Ela entregou a máscara para Tyler, que começou a puxar o ar.
Parecia estar funcionando. Ela se despediu de Charles e prometeu ligar mais tarde.

— Tyler? — Ela o chamou e ele assentiu. Ele parecia respirar de novo e ela se acalmou. Ele apontou para o andar de cima e Ana o ajudou a ir para o quarto. Assim que ele estava em sua cama, tirou a máscara. — Não. Coloca de volta.

— Está tudo bem, Ana. Eu estou bem.

— Você me assustou. Você não estava respirando.

— Eu estou bem agora. Só preciso ficar um tempo com a máscara. Você pode ligar para o meu pai e dizer que está tudo bem? Não quero que ele venha aqui. — Ele pediu, recolocando a máscara.

— Tudo bem. Eu deixei meu celular lá em baixo. Eu volto logo. — Ela disse e ele deu um sorriso fraco.

— Doutor Patz? Sou eu.

— Olá, Ana. Como meu filho está? Ele consegue respirar? — Perguntou preocupado.

— Sim, ele está bem agora.

Isso é bom. — Ficou aliviado. — Acha que eu preciso ir aí?

— Não. Ele disse que está bem. Eu não entendo. Ele estava bem. Disse que se sentia bem disposto.

— Já é a terceira crise nesses cinco anos.

— Eu devia ter percebido. Devia...

— Ana, você não tinha como saber. Eu como médico não tenho. Essas crises simplesmente acontecem.

— Por que ele tem essas crises? Só fomos andar um pouco. O que ele tem exatamente?

— Depois do acidente, nós fizemos vários exames para saber até onde as sequelas foram, e uma delas foi no pulmão. Ele tem um edema pulmonar.  Quando ele recebeu alta do hospital, ele precisava de um gondola respiratória, mas depois de algum meses ele simplesmente não precisou mais dela.

— Não precisou ou não quis mais?

— Um pouco dos dois. Tyler é meu filho, mas é adulto. Eu não poderia obrigá-lo. Então ele não a usa o tempo todo. Apenas a noite.

— Eu nunca tinha visto até hoje.

— É claro que não. Ele mantém o equipamento muito bem escondido e só o coloca quando está no quarto. Não gosta que o vejam com ela.

— Mas isso é loucura. Se ele precisa da gondola para acabar com essas crises por que não usa? Pelo que vão pensar dele?  Isso é ridículo.

— Eu amo meu filho, mas ele não é muito sensato com alguns assuntos.

— E o que vai acontecer agora? — Ana perguntou.

— Contanto que ele descanse e use a máscara, ele ficará bem.

— Eu vou cuidar disso. Obrigada, doutor Patz. Se acontecer alguma coisa eu volto a ligar.

— Obrigado, Ana. — Ele disse e desligou.
Ana voltou para o quarto e encontrou Tyler sentado na cama com a máscara.

— Pode, por favor, não me olhar assim? — Pediu a fitando.

— Assim como?

— Como se eu estivesse morrendo.

— O que você tem na cabeça? Se precisa dessa coisa por que não usa?

— Pelo jeito você já conversou com meu pai. E não precisa gritar como se eu fosse uma criança. — Fechou a cara.

— Não preciso gritar? — Disse irritada. — Eu te trato como uma criança quando você age como uma e não faça essa cara. — Semicerrou os olhos. — Por que não disse nada? Você me assustou como um inferno hoje. — Disse com lagrimas nos olhos.

— Ei... Não chora. — Pediu com culpa nos olhos por fazê-la chorar. — Vem aqui. — A chamou estendendo a mão.

— Coloca a máscara. Você precisa dela. — Disse fungando.

— Preciso mais de você. Eu vou contar o porquê que eu não disse nada. Vem aqui. — Estendeu a mão outra vez e ela foi se sentar ao lado dele, se aconchegando em seus braços.

— Eu meio que preciso disso.

— Eu percebi. E por que você não usa? — Ela perguntou baixinho.

— Porque eu não gosto de como as pessoas me olham quando eu uso. Como você estava me olhado quando entrou no quarto.

— Como eu estava olhando?

— É. Como se eu estivesse morrendo. Com pena.

— Eu não tenho pena de você, Tyler, eu fiquei assustada. Como você ficaria se eu não conseguisse respirar e você não pudesse fazer nada? — Perguntou, o fazendo refletir.

— Eu não pensei por esse lado. Mas os olhares me incomodam.

— Mas você não precisa disso para respirar?

— Não exatamente. Ele deixa minha respiração mais leve. Mais fácil.

— Mais fácil?

— É como... Se você prender a respiração por muito tempo e soltar, você respira com dificuldade, certo?

— Acho que sim.

— É como se eu vivesse prendendo e soltando a respiração.

— Mas se você usar isso? Você respiraria normalmente?

— Sim. Mas eu ainda não gosto.

— Então prefere viver sem respirar direito pelo que os outros vão pensar?

— Não. Sim. Olha, é complicado.

— É. Você é muito complicado. Mas eu ainda adoro cada parte disso. — Ela disse fungando e se aconchegando mais nele. — Eu gosto quando você sorri das minhas palhaçadas. Eu adoro como você consegue... Passar de rabugento pra fofo em menos de dois minutos. Eu adoro como você não liga para minhas perguntas, por mais constrangedoras que sejam ou como você se perde quando está tocando piano. Como se você se encontrasse enquanto está sentado tocando... Eu amo... Você. — Ana disse e Tyler a olhou. — Merda. Eu amo você.

— Ana... — Ele sussurrou, mas ela não conseguia olhá-lo.

— E pelo seu passado, eu te conheço bem pra saber que vai precisar de tempo e eu não espero que diga nada agora e...

— Eu também te amo. — Tyler disse, fazendo Ana se calar. — Já está escurecendo. Você pode ficar? — Ele pediu.

— Posso. — Respondeu colocando a cabeça no vão do pescoço dele e inalando seu cheiro.

Depois de algum tempo, Tyler adormeceu e Ana se levantou indo até a cozinha pegar um pouco de água. Quando voltou, Tyler ainda dormia. Ele parecia um anjo. Ela deitou ao seu lado, mexendo em seus cabelos.

Ela não sabia como isso acabaria, mas tinha uma certeza. Precisava falar com o doutor Patz e cancelar o acordo que eles haviam feito para que ela ficasse ali com ele. O mais rápido possível. Se Tyler descobrisse, pensaria que ela estava com ele pelo dinheiro e ela sabia muito bem que não era isso. Ela o amava. Com cada fibra do seu ser, ela o amava, e por algum fenômeno da natureza, ele a amava também. Ela não estava disposta a colocar isso a perder. Por quantia nenhuma.







                      CONTINUA...
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